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O "ethos" da Ciência

Seg, 05 de Novembro de 2018 13:48

Artigo de Sergio Volchan, doutor pelo Courant Institute da Universidade de Nova York, para o blog “Ciência e Matemática” do jornal O Globo

 

Em artigo anterior (ver “A Fraude Científica”) deixamos em aberto a questão: existe um ‘ethos’ científico?

 

Lembremos que ‘ethos’ (“caráter”, em Grego) refere-se à disposição, caráter ou valores fundamentais específicos de uma pessoa, comunidade, corporação, cultura ou movimento. Ou seja, é um sistema de valores e princípios que norteiam a atividade dessas estruturas. O foco aqui é sobre a comunidade científica e suas instituições:

 

A existência de um ‘ethos’ científico foi a conclusão a que chegou Robert C. Merton (1910-2003), um dos fundadores da Sociologia da Ciência. Em um estudo pioneiro feito realizado no período 1938-42, Merton propôs um sistema de quatro normas básicas (usualmente implícitas) que rege a atividade científica, a saber:

 

Comunalismo (epistêmico): compartilhamento irrestrito do conhecimento científico;

Universalismo: ou impessoalidade; a validação científica independe do status sócio-político ou atributos pessoais, étnicos, nacionais, culturais, de gênero, etc. dos pesquisadores;

Desinteresse: no sentido de isenção, desprendimento de vínculos ou constrangimentos políticos e econômicos;

Ceticismo (organizado): ou dúvida metódica/controlada e abertura intelectual; afirmações científicas devem ser expostas ao escrutínio crítico da comunidade antes de serem aceitas.

 

É claro que o compartilhamento do conhecimento deve incluir reciprocidade e o devido crédito ao trabalho realizado. A impessoalidade e a isenção não excluem motivações pessoais diversas, a paixão ou a ambição (idealmente por conhecimento, entendimento e reconhecimento dos pares). E o ceticismo deve ser moderado ao invés de radical, para que seja construtivo e útil.

 

Do que se sabe sobre a natureza humana e suas limitações, é surpreendente que o sistema de valores da ciência tenha funcionado relativamente bem. Infelizmente, nas últimas quatro décadas o ‘ethos’ científico tem estado sob grande pressão, seja por fatores internos quanto externos, o que tem levado a um preocupante aumento de violações do código de conduta científico.

 

Os sintomas vão desde o açodamento e espetacularização (como no caso da “fusão a frio”), passando por vendetas pessoais, disputas de egos e chegando ao tipo mais grave: a fraude pura e simples.

 

No artigo anterior, mencionamos alguns exemplos de fraude e como ela afeta a integridade de toda a atividade científica que se sustenta na confiança no cumprimento das normas éticas básicas. Mas as consequências também podem ser socialmente nefastas, como caso do artigo fraudulento que afirmava uma ligação entre a vacina-tríplice viral (caxumba-sarampo-rubéola) e a incidência de autismo. Publicado em 1998 no periódico The Lancet, o artigo é considerado como sendo talvez a maior fraude médica dos últimos 100 anos. Ele foi o estopim para a formação de um “movimento anti-vacinação” que continua firme até hoje, mesmo após constatada a fraude e de vários estudos posteriores não terem detectado evidência alguma da ligação alegada. O resultado desse ativismo obscurantista foi a queda da imunização da população e o retorno de doenças de fácil prevenção.

 

Que fatores podem estar levando ao esgarçamento do ‘ethos’ científico? Entre os fatores externos, pode-se citar a visão muitas vezes contraditória do público a respeito da Ciência, que oscila entre a fascinação e opróbrio: ora exaltada como panaceia, ora culpada por todos os males da modernidade. Um erro bastante comum é confundir pesquisa básica com tecnologia, que são atividades fundamentalmente distintas (ainda que a tecnologia moderna use a ciência). Existe uma enorme incompreensão sobre o funcionamento da Ciência, sendo que a mídia, com honrosas exceções, tende a transmitir uma visão sensacionalista e estereotipada de seu funcionamento, objetivos e dificuldades. Isso talvez explique em parte a contínua atração do público pela pseudociência. Finalmente, há movimentos que são abertamente ou dissimuladamente anti-ciência, podendo tomar feições pseudo-filosóficas ou com matizes conspiratórias.

 

Entre os fatores internos, podemos citar a burocratização e a intensa competição por recursos financeiros, promoção e prestígio. Isso gera enorme pressão sobre os pesquisadores que, somado à injunção do ‘publish or perish’, pode levar a tentação de burlar a ética científica. Há certa promiscuidade também entre o público e o privado, gerando tensões de conflitos de interesse, na qual a integridade da investigação cientifica é por vezes sacrificada em prol de objetivos imediatistas. Outra tendência preocupante é a politização da pesquisa científica, onde o ativismo, bem-intencionado ou não, ameaça ou mesmo atropela os protocolos básicos da ética da pesquisa científica. Finalmente, existe uma facção anti-ciência dentro da própria academia, cuja razão de ser é promover um ataque sistemático e obscurantista contra ela.

 

Em suma, a Ciência possui um sistema interno de princípios (ou endoaxiologia) centrado no ‘ethos’ da livre busca da verdade, que inclui valores:

 

(1) Lógicos: exatidão, precisão conceitual, sistemicidade e consistência (tanto interna quanto entre os ramos da Ciência);

(2) Semânticos: clareza e verdade, ou seja, adequação das ideias aos fatos;

(3) Metodológicos: testabilidade, escrutabilidade (incluindo os próprios métodos de pesquisa);

(4) Morais/atitudinais: pensamento crítico disciplinado, abertura mental, honestidade intelectual, integridade, veracidade, mérito e reconhecimento devido, modéstia, etc.


Fundada nesses valores, a Ciência tem sido o motor da civilização moderna nos últimos 350 anos. Mas não é impossível que esteja ocorrendo uma mudança irreversível na forma em que ela é praticada, financiada e avaliada. As tensões exercidas sobre o código de valores científicos podem ser uma manifestação dessa transformação. Se quisermos deter essa tendência é fundamental proteger, disseminar e cultivar o ‘ethos’ científico.

 

Fonte: Jornal da Ciência, 01/11/2018, com informações O Globo

 
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