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Eleição presidencial do Brasil pode trucidar a ciência

Qua, 10 de Outubro de 2018 09:59

Reportagem da Nature fala sobre o impacto das eleições sobre a ciência brasileira: “Um dos dois principais candidatos propôs a eliminação do ministério da ciência do País, enquanto o outro tentaria aumentar o financiamento da pesquisa”, destaca a matéria do periódico britânico

 

Um aumento populista de um candidato presidencial de direita no Brasil que está ameaçando derrubar a política do país pode ter enormes impactos nos orçamentos de pesquisa e nas políticas ambientais.

 

Jair Bolsonaro, polêmico ex-oficial militar frequentemente apelidado de “Trump Tropical”, delineou planos que enfraqueceriam as proteções ambientais e eliminariam o ministério da ciência. Ele atualmente tem uma pequena vantagem nas pesquisas para a primeira rodada de votação nas eleições presidenciais do país, marcada para 7 de outubro. Anos de problemas econômicos e escândalos de corrupção servem de pano de fundo para a eleição. O orçamento federal de ciência do Brasil caiu drasticamente ao longo de quase uma década, e os políticos pró-indústria estão lentamente desmantelando as regulamentações ambientais do País. Mas os dois principais candidatos presidenciais ofereceram visões muito diferentes para abordar essas questões, deixando os cientistas no limite. Bolsonaro é um dos 13 candidatos. Nenhum deles é provável que obtenha a maioria dos votos em 7 de outubro, então os dois candidatos com o maior número de votos iriam se candidatar a um segundo turno no final deste mês. As últimas pesquisas sugerem que Bolsonaro – cujo candidato à vice-presidência levantou o espectro da intervenção militar para lidar com a disfunção política – enfrentaria Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo. Haddad é o candidato de substituição do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio “Lula” da Silva, um líder popular do esquerdista do Partido dos Trabalhadores, que foi impedido de concorrer à presidência porque atualmente está preso por acusações de corrupção.

 

Maioria silenciosa

 

Bolsonaro, um político do Rio de Janeiro, na câmara dos deputados do Congresso do Brasil, frequentemente vota com a bancada rural conservadora, que está buscando ativamente enfraquecer as regulamentações ambientais. Ele propôs tirar o Brasil do acordo climático de Paris em 2015 e eliminar os ministérios de ciência e meio ambiente, reorganizando-os sob o ministério da agricultura, pecuária e abastecimento. Na região amazônica, segundo os cientistas, Bolsonaro está buscando promover a expansão agrícola e industrial em detrimento das proteções ambientais e dos direitos das comunidades indígenas.

 

A mensagem para a indústria e a agricultura parece ser que uma administração Bolsonaro permitiria que eles fizessem o que quisessem na Amazônia, diz Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, uma rede de 37 grupos de São Paulo focados na política climática. Se ele vencesse, seria “um pesadelo”. Bolsonaro já foi considerado um candidato a longo prazo. Até recentemente, ele perdeu para a maioria dos outros principais candidatos em pesquisas de cabeça-a-cabeça, analisando um possível segundo turno no final deste mês. Os últimos resultados da segunda rodada, no entanto, mostram Bolsonaro e Haddad empatados em uma disputa acirrada.

 

“As pessoas dizem que Bolsonaro não tem chance, mas quem sabe”, diz Carlos Nobre, cientista do clima e ex-secretário de pesquisa e desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. “Estou realmente com medo de que haja uma maioria quieta no Brasil, e quem sabe em que lado eles estão se inclinando”.

 

Impulsionando a ciência

 

Haddad, por outro lado, tem uma visão mais geral para o Brasil que enfatiza a ciência, a inovação e a ação sobre as políticas climáticas e ambientais. Ele prometeu promover energias renováveis, como eólica e solar, enquanto combate o desmatamento e mantém proteções para territórios indígenas na Amazônia. E, ao contrário de Bolsonaro, que pediu mais pesquisa e desenvolvimento do setor privado, Haddad se comprometeu a aumentar os gastos federais em ciência. Ele propôs aumentar o investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento para 2% do produto interno bruto do Brasil, usando uma combinação de financiamento governamental e privado. Isso traria os gastos científicos do país de acordo com muitos países industrializados.

 

Não está claro como são possíveis essas metas de gastos. Um problema é que, no final de 2016, o Brasil adotou uma emenda constitucional que limita os investimentos do governo por 20 anos, além de ajustes pela inflação. Qualquer política que reconheça e invista em ciência e tecnologia seria bem-vinda, diz o físico teórico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências. Ele observa que, após o ajuste pela inflação, o orçamento do Ministério da Ciência diminuiu em cerca de dois terços desde 2010, para cerca de 3,4 bilhões de reais (US $ 860 milhões).

 

Futuro incerto

 

Os salários dos pesquisadores das universidades públicas são garantidos no Brasil. Assim, a carnificina do orçamento científico significou que há menos dinheiro para equipamentos, subvenções federais, viagens, bolsas de pós-doutorado e apoio a colaborações internacionais. Apesar da falta de recursos e apoio federal, Davidovich diz que os cientistas estão pressionando, sempre que possível. “Fazer pesquisa no Brasil agora é um ato de resistência e é isso que estamos fazendo”, diz ele.

 

Mas, embora a ciência e a tecnologia façam parte das campanhas de Bolsonaro e Haddad, é cedo demais para dizer o que pode acontecer depois da eleição. “O fato de eles terem ciência e tecnologia em seu programa não significa que será importante quando um deles se tornar presidente”, diz ele. “Há uma grande diferença entre o que está escrito e o que é praticado.”

 

Fonte: Jornal da Ciência, 09/10/2018, com informações Nature 562, 171-172 (2018)

 
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