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Ciência e tecnologia: mudar de rumo para não perder o futuro

Seg, 17 de Setembro de 2018 11:00

Artigo de Glauco Arbix, professor titular e coordenador do Observatório do Instituto de Estudos Avançados da USP, para o Jornal da USP

 

Você quer uma receita simples para nunca mais se preocupar com as baterias do seu smartphone? Ou para diminuir sua culpa porque perdeu a data de vacinação de seu bebê? Ou, ainda, para jamais se atrasar porque não consegue encontrar as chaves do seu carro?

 

É fácil. Basta fechar os olhos e imaginar um mundo sem ciência e tecnologia, em que nós faríamos parte de uma civilização sem telefone, automóvel ou vacinas. E também sem a eletricidade, o avião, o trem e navios; ou os avanços da medicina, da engenharia, da física, das ciências humanas e da biologia. Sem a escrita, a linguagem e a busca pelas nossas origens jamais chegaríamos a conformar o arsenal gigantesco das ciências da vida, que nos permite valorizar, preservar, ampliar e buscar sentido para nossa existência.

 

Com o conhecimento, o universo natural se expande e ganha novos contornos. É o que anima a complexidade da cultura, da política e das artes. Mais do que técnicas, instrumentos e equipamentos, trata-se da produção e compreensão ininterrupta da existência humana. Exatamente por isso, a ciência e a tecnologia estão entre as fundações de nossa civilização. Com toda sua diversidade, são alimentadas e alimentam, a um só tempo, trajetórias não lineares, tensas e contraditórias, que marcam o tecido das sociedades contemporâneas.

 

As perguntas sobre o porquê e o como nasceram com as primeiras buscas pela sobrevivência. E as diferentes respostas formuladas estão nas raízes do poder, das cidades e das nações, assim como da disputa entre grupos opostos, classes, de guerras e revoluções.

 

Não à toa, o esforço para compreender como e por que as coisas funcionam do jeito que funcionam, assim como para decifrar como as relações sociais são construídas, ajuda-nos a preservar e a avançar em nossa própria existência.

 

Desse prisma, as atividades de laboratório, realizadas por homens e mulheres de branco e maquinário high tech, são apenas uma pequena parte do que pode se chamar de ciência. O conhecimento científico tem a ver com a busca e identificação de padrões, de replicabilidade, de simulações, testes e comprovações. É espaço que comporta a imaginação, a curiosidade, a intuição e a dedução, em que a subjetividade é minimizada, jamais eliminada. Precisamente porque a ciência somente existe nas dobras da tensão permanente entre o conhecimento e a incerteza. As falhas eventuais apenas integram o rol de oportunidades que circunstancialmente se fecham, sem levar à perda da dimensão temporal e de sua inscrição no mapa das hipóteses.

 

O avanço da ciência exige paciência e tolerância, pois sem a crítica e o contraditório o movimento se esgota rapidamente. É assim que conseguimos captar como os fenômenos operam e também como se viabilizam. Foi o que levou as sociedades e os sistemas econômicos e políticos a se estruturarem.

 

Ciência e tecnologia compõem o DNA do modo de produção da vida material, dos mecanismos econômicos que apontam para a prosperidade. São emuladores do futuro e fonte de apreensão, já que nem todos os países conseguem acessá-las do mesmo modo e nem todas as pessoas são beneficiadas por seus resultados da mesma maneira.

 

Por conta dessa desigualdade, muitos pesquisadores apontam para a perda de dinamismo da ciência moderna e da tecnologia que estariam drenando sua capacidade de atuar como motores da prosperidade. O ponto central é que o avanço das ciências é muito dependente de instrumentos e da evolução de tecnologias. E essa evolução provoca impactos na própria atividade científica, como os caminhos abertos pelos meios digitais de hoje sugerem fortemente.

 

A computadorização da ciência não significa apenas a possibilidade de se lidar com gigantescos bancos de dados e com sistemas estatísticos mais sofisticados. A pesquisa atual é capaz de empregar algoritmos de machine learning que detectam padrões, inferências e correlações que os olhos e mentes humanos não conseguem identificar, nem relembrar e muito menos prever. Os novos campos de pesquisa permitem que os processos naturais sejam revisitados, que novos materiais sejam desenhados e modelos matemáticos simulados.

 

Ao longo da história, muita gente imaginou o potencial dessas técnicas e métodos, mas em anos recentes o grau de complexidade alcançado pode afetar não somente a produtividade das economias, mas também fundamentos sociais. A constelação de tecnologias que compõem a inteligência artificial desponta como a mais promissora em meio à onda atual de inovações e como fonte de esperança para as sociedades, ainda que estimule preocupações quanto à privacidade, desemprego e desigualdade. A física, a química, a biologia, as engenharias e todas as ciências sociais já estão sendo questionadas em seus fundamentos com os avanços da inteligência artificial. O poder de transformação de suas técnicas aponta para a sua configuração como uma tecnologia de propósito geral, capaz de penetrar por todos os ramos da ciência e pelos poros das sociedades.

 

As perspectivas abertas para países desenvolvidos e emergentes como o Brasil são imensas. O Brasil não está obrigado a seguir os mesmos passos de outras nações, nem a realizar as mudanças em linha do tempo similar, pois a flexibilidade dessas tecnologias permite-nos saltar fases e contornar obstáculos que paralisaram países avançados por décadas.

 

Insistimos, as oportunidades colocadas para países em desenvolvimento são inéditas e enormes. Perdê-las, mais uma vez, significa condenar nosso país a sobreviver nas franjas da ciência e da economia mundial, com dificuldades imensas para a geração de emprego de qualidade e de elevação da produtividade de nossa economia e do padrão de vida dos brasileiros.

 

Por isso, causa-nos profundo desconforto ser levados a defender a ciência, a tecnologia e inovação como contraponto à narrativa e atuação anticiência do governo atual. Afinal, estamos em 2018, em meio a um poderoso ciclo tecnológico cujo epicentro está em grandes conglomerados de (poucos) países avançados. O debate real deveria versar sobre como podemos nos apropriar desses avanços, como fazer as inovações trabalharem para todos, com ética, respeito à privacidade, sem preconceito e com transparência. De que forma o poder público deveria estar definindo prioridades e critérios para melhorar a qualidade do investimento. E sobre o que poderia ser feito para manter a estabilidade de recursos, o aprofundamento das relações entre universidade e empresa e a cooperação entre o público e o privado.

 

Esse caminho flagrantemente óbvio está sendo solenemente ignorado nos dias que correm. E se não colocarmos rapidamente o País nos trilhos, perderemos, além da chance de sacudir nossas empresas e universidades, que precisam se abrir para o mundo e para a sociedade, qualquer possibilidade de conexão com o futuro.

 

Fonte: Portal Jornal da Ciência, 13/09/2018, com informações Jornal da USP

 
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