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Investimento em inovação dependerá de diálogo com governo e sociedade

Sex, 27 de Julho de 2018 09:50

A inovação tecnológica é fundamental para melhorar a qualidade de vida da população e acelerar o crescimento econômico do Brasil. A permanência e o aumento dos investimentos nessa área só serão possíveis, contudo, se os formuladores de políticas científicas e tecnológicas conseguirem estabelecer um diálogo com o governo e a sociedade no sentido de mostrar a importância da inovação para o aumento da produtividade do país.

 

A avaliação foi feita por Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, em mesa-redonda sobre os desafios das políticas públicas para a inovação realizada no dia 25 de julho, durante a 70ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que ocorre até o dia 28 no campus da Universidade Federal de Alagoas.

 

“Se a sociedade e o governo forem capazes de entender que para aumentar a produtividade brasileira é preciso investir em inovação, talvez tenhamos alguma chance de diálogo”, disse Pacheco.

 

Segundo ele, a produtividade brasileira, fundamental para aumentar a renda da população sem gerar inflação, está estagnada há 25 anos, enquanto a produtividade do mundo tem crescido. A inovação tecnológica é o principal determinante para aumentá-la no longo prazo.

 

No caso do Brasil, entretanto, dado o atraso institucional do país – onde, por exemplo, é difícil fechar uma empresa, cumprir as obrigações tributárias e a burocracia é enorme –, talvez as reformas institucionais sejam capazes, no curto prazo, de melhorar a produtividade tecnológica mais rápido do que a inovação tecnológica, estimou Pacheco.

 

“A inovação tecnológica, porém, é crítica para o aumento da produtividade do país a longo prazo e saber explorar isso de forma inteligente é importante por ser a única linguagem que a área econômica de qualquer governo do país consegue identificar no diálogo sobre ciência e tecnologia”, disse.

 

Segundo o diretor-presidente da FAPESP, os formuladores de políticas científicas e tecnológicas e a comunidade científica, no geral, também têm que ter maior habilidade de explicar para a sociedade o que os investimentos em ciência, tecnologia e inovação resultam em termos de desenvolvimento econômico e social e melhoria na qualidade de vida.

 

Esse esforço terá que ser maior especialmente agora, quando o país vive uma grave crise econômica e o sistema nacional de ciência e tecnologia foi seriamente impactado, apontou.

 

“A reconstrução do sistema nacional de ciência e tecnologia só será possível se formos capazes de explicar para a sociedade por que os investimentos nessas áreas são importantes e que benefícios sociais e econômicos podem trazer”, disse Pacheco.

 

Na avaliação dele, uma nova geração de políticas de ciência, tecnologia e inovação no Brasil deve atentar para alguns requisitos, como recursos humanos, capacitação científica, flexibilidade para cooperação público-privada, boa governança e gestão adequada. Além disso, deve apontar questões objetivas que podem dar um rumo ao Brasil a partir de desafios que o país enfrenta ou com os quais vai se deparar, ter foco e selecionar algumas prioridades.

 

“Não dá para ter uma agenda de ciência, tecnologia e inovação que vá desde a felicidade geral da nação até a biodiversidade, passando por nanomateriais, por exemplo. É preciso criar uma mensagem mais sintética e traduzível do ponto de vista da inovação de coisas que são possíveis tocar para a frente”, disse.

 

Segundo Pacheco, uma das áreas prioritárias em uma nova geração de políticas de inovação é a agricultura de precisão. A cadeia do agronegócio responde por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e tem passado por uma revolução tecnológica, caracterizada pelo uso cada vez maior de sensores e drones com o intuito de aumentar a eficiência no campo.

 

“O setor do agronegócio brasileiro transformou a tecnologia em algo endógeno, o que sempre foi o nosso sonho para a indústria brasileira. Temos na carteira de empresas apoiadas pelo programa PIPE da FAPESP um número gigantesco de agrotechs, como chamamos as startups cujo foco de negócio é o desenvolvimento de tecnologias para o setor agrícola”, disse.

 

A agricultura de precisão, em conjunto com a biologia sintética, a engenharia genética e práticas sustentáveis podem alavancar o conjunto de cadeias de valor que se articulam com o mundo real, avaliou Pacheco.

 

Experiência internacional

 

Na opinião de Luiz Antonio Rodrigues Elias, ex-secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) no período de 2006 a 2014, além da inovação, os países enfrentam hoje novos desafios no comércio, na produção e na concorrência.

 

Segundo ele, o comércio mundial fragmentou geograficamente várias cadeias de valor. Empresas de países avançados terceirizaram a produção e se concentraram nas atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), design e marketing. Novos produtores – especialmente da Ásia – avançaram em P&D e passaram a disputar a liderança global.

 

Elias comentou que países avançados, como Estados Unidos, Japão e Alemanha, têm reagido a essas mudanças aumentando os dispêndios em ciência, tecnologia e inovação. Na contramão, países da América do Sul e do Caribe têm intensificado a dependência em matérias-primas, e o Brasil tem diminuído os dispêndios em ciência, tecnologia e inovação.

 

“Algumas das lições que o Brasil poderia aproveitar da experiência internacional é que é essencial reforçar e articular sistemas de ciência, tecnologia e inovação e induzir atividades permanentes de engenharia e P&D no sistema empresarial por meio de ecossistemas produtivos e inovativos e ampliar a infraestrutura científica e tecnológica”, disse.

 

Segundo Elias, algumas premissas para uma estratégia brasileira de inovação devem ser reconhecer e endereçar os anseios da sociedade por qualidade de vida e ambiental; construir consenso em torno de uma visão nacional; partir dos legados; e ter visões e metas ambiciosas para tirar proveito das oportunidades.

 

“O país também precisa de uma estratégia de formação de recursos humanos produtiva, inovativa, consistente e de longo prazo”, disse.

 

 

Para mais informações acesse aqui.



Fonte: Portal Agência FAPESP

 
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