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Eliminar desperdícios é base do pensamento enxuto

Seg, 28 de Maio de 2018 11:07

“O pensamento enxuto é sobre a execução de vários ciclos de melhoria em uma espécie de aprendizado experimental do tipo em que você aprende enquanto você faz”.

 

Entrevista com Earll Murman, professor emérito no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, por Patricia Mariuzzo*.

 

Earll Murman é professor emérito no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. É formado em engenharia aeronáutica pela Universidade de Princeton e PhD em ciência mecânica e aeronáutica na mesma universidade e especialista em processos de Lean Six Sigma, educação de engenharia, melhoria de sistema de gestão da saúde. O pensamento lean, ou pensamento enxuto, é uma filosofia de negócios que teve origem no sistema Toyota de produção que se consolidou no Japão no final da II Guerra Mundial. Sua aplicação que visa eliminar desperdícios e otimizar os processos alcançou grande sucesso, fazendo com que fosse implantada em empresas de todo o mundo. Em 1993, Earll Murman participou da criação do consórcio de pesquisa Lean Advancement Iniciative (LAI), com sede no MIT. O objetivo da LAI era disseminar a filosofia lean nos Estados Unidos. Sob sua coordenação, em 2002, a LAI se transformou em uma rede educacional com parcerias com diversas instituições de ensino norte-americanas, disponibilizando materiais, cursos e boas práticas da filosofia lean. No mesmo ano ele publicou o livro “Lean Enterprise Value: Insights from MIT s Lean Aerospace Initiative”. Nesta entrevista para a revista Inovação, o professor resume o conceito básico da filosofia baseada no pensamento enxuto: “O pensamento lean pode ser descrito como a ‘aplicação focada do senso comum’. Seus princípios e ferramentas são simples. Isso permite que as pessoas que estão realizando determinado trabalho melhorem o desempenho e isso amplia a adesão ao programa”. Ele também fala sobre a aplicação do pensamento lean na saúde e na educação.

 

Inovação: O pensamento enxuto surgiu há 25 anos no chão de fábrica, em resposta ao grande problema que precisávamos resolver naquela época: o fraco desempenho das empresas industriais. Em sua opinião, o que tem mantido o pensamento lean relevante por tanto tempo enquanto tantas outras metodologias de melhoria praticamente desaparecem?

 

Earll Murman: Talvez seja porque o pensamento enxuto funcione bem em muitos setores e países. O pensamento lean pode ser descrito como a “aplicação focada do senso comum”. Seus princípios e ferramentas são simples. Isso permite que as pessoas que estão realizando determinado trabalho melhorem o desempenho. Então, quando bem feito, haverá apoio e adesão dos colaboradores.

 


Inovação: A disseminação da filosofia lean nos Estados Unidos contou com uma forte e articulada rede de educação com base no MIT, a Lean Advancement Iniciative (LAI), que o senhor dirige. Pode falar um pouco sobre esse trabalho? Ainda no que diz respeito à comunicação da filosofia, quais são os maiores desafios para o movimento lean agora?

 

Earll Murman: O pensamento enxuto tem uma cultura de compartilhamento de conhecimento e das melhores práticas. A Toyota deu o exemplo que os outros seguiram. A rede educacional LAI construiu isso através do compartilhamento de currículos e experiências de ensino. Os benefícios do compartilhamento são enormes à medida que todos avançam em seus conhecimentos. O maior desafio que tenho agora é acompanhar todas as publicações e conhecimentos online que estão disponíveis.

 

Inovação: O sucesso da implementação da filosofia lean depende do engajamento das pessoas, desde as lideranças até os primeiros níveis de uma cadeia hierárquica. É correto dizer que a implementação de um sistema enxuto deveria mudar mais o indivíduo do que a instituição?

 

Earll Murnan: Como a instituição é composta de todos os indivíduos, eles necessariamente mudam juntos. A liderança desempenha um papel fundamental na orquestração desta transição – e por liderança eu quero dizer em todos os níveis. Os métodos de gerenciamento de mudanças são certamente importantes em uma implementação enxuta.

 

Inovação: Com a racionalização dos processos em uma empresa é esperado um aumento de produtividade e eventual desemprego, mesmo que pontual. Como o lean depende muito do apoio das pessoas envolvidas, como conciliar o lean em toda cadeia produtiva se os trabalhadores poderão ser afetados negativamente? Em outras palavras, como evitar que o lean sirva exclusivamente ao lucro e não a geração de valor para toda a sociedade?

 

Earll Murman: Qualquer implementação lean bem-sucedida deixa claro para os funcionários que ninguém perderá seu emprego como resultado de melhorias de produtividade. Em vez disso, a organização poderá fazer mais com as mesmas pessoas. O ditado “um trabalhador produtivo é um trabalhador feliz”, que surgiu na John Deere (empresa norte-americana, uma das maiores produtoras mundiais de equipamentos agrícolas), ilustra que os funcionários ficarão mais satisfeitos com seus empregos em uma organização lean thinking. A liderança deve apoiar seus funcionários e reciclar ou reatribuir conforme necessário. Eles não podem ser substituídos se desistirem ou se aposentarem, mas não devem ser prejudicados porque melhoram a produtividade.

 

Inovação: A busca do não desperdício conflita com o prazer do consumo compulsivo muitas vezes usado para impulsionar a economia. Como o senhor vê a relação entre o lean e o consumismo?

 

Earll Murman: O pensamento lean é focado no desperdício em processos, não no desperdício de produtos consumíveis. O foco está na eliminação de tempo perdido, esforço desperdiçado, saídas defeituosas e muito mais. A questão de como reduzir o desperdício em nosso consumo de recursos é um tópico diferente – e importante.

 

Inovação: Recentemente o Brasil sediou a oitava edição do Fórum Mundial da Água onde foram os gargalos no saneamento, desperdício e também a desigualdade de distribuição desse recurso. Um dos grandes desafios de gestão que temos hoje é a gestão dos recursos naturais. O senhor acredita que seria possível expandir o conceito lean para pensar modos de exploração menos predatórios para o planeta?

 

Earll Murman: Acho que é uma ideia que vale a pena explorar e sobre a qual não pensei. Seria melhor começar em pequena escala com um desafio de extensão limitada que poderia ser melhorado de modo incremental. O pensamento enxuto é sobre a execução de vários ciclos de melhoria envolvendo “Planejar-Fazer-Checar”, em uma espécie de aprendizado experimental do tipo em que você aprende enquanto você faz. Tentar resolver as desigualdades de distribuição de água no planeta é um desafio muito grande para começar.

 

Inovação: A filosofia lean baseia-se na simplicidade, na eficiência do uso dos recursos e na busca incessante pela excelência do processo. O que seria essa excelência na medicina? Como é possível implementar a filosofia lean em sistemas nos quais operadoras lucram com o número de exames e a indústria farmacêutica com a comercialização de medicamentos?

 

Earll Murman: De fato, existem alguns conflitos reais com os incentivos econômicos no sistema de saúde e as oportunidades de melhoria de processos. No entanto, há muitas organizações de saúde que superaram esses conflitos e obtiveram grandes ganhos com a saúde enxuta. O pensamento enxuto parece um ótimo caminho para melhorar a prestação de cuidados de saúde.

 

Inovação: A filosofia enxuta pode ter um papel importante a desempenhar no desenvolvimento das cidades e na melhoria da qualidade de vida de seus cidadãos. O mundo do futuro será construído em torno de “cidades enxutas”. Pode falar um pouco sobre a experiência de introduzir o lean thinking no condado de Jefferson, em Washington?

 

Earll Murman: Eu tenho feito parte de um experimento nos últimos cinco anos para levar o pensamento enxuto a um condado inteiro onde moram cerca de 30 mil pessoas. Como todas as coisas do lean thinking, é melhor começar pequeno e aprender antes de tomar medidas maiores. Fiquei muito satisfeito com a receptividade da nossa comunidade e com o progresso que fizemos. Mas temos muito mais a fazer e aprender. Resta ver se a nossa abordagem é aplicável a outras comunidades, mas acho que pode ser.

 

Inovação: O engajamento das pessoas tem papel chave na filosofia lean. Quando extrapolamos esse conceito para cidades inteligentes, o engajamento do cidadão torna-se essencial. Qual o caminho para alcançar esse engajamento e criar uma atmosfera de cooperação e compromisso com uma lean city?

 

Earll Murman: Vai levar tempo – talvez uma geração – ou mais. Então paciência e continuidade serão importantes. Todo o processo precisa acontecer em pequenos passos e crescer organicamente a partir de dentro. As pessoas precisam ver melhorias. É claro que haverá falhas, mas se pequenos passos forem dados, as falhas serão pequenas e corrigíveis. Liderança inspirada será essencial.

 

Inovação: Uma sociedade do conhecimento exige das instituições educacionais uma profunda reflexão sobre a forma e o conteúdo ensinado aos alunos e uma maior integração com a sociedade em que atuarão. Como o pensamento enxuto pode contribuir para a transformação da educação? Como a comunidade lean pode interagir mais com a academia, na busca de modelos que desenvolvam profissionais para o futuro, enfatizando a capacidade de resolver problemas cada vez mais complexos?

 

Earll Murman: Esta é uma ótima pergunta que não tem uma resposta curta. Ao responder à primeira pergunta, mencionei que o pensamento enxuto é a “aplicação focada do senso comum”. Não é uma coisa misteriosa. Eu acho que os conceitos e algumas das ferramentas são bastante aplicáveis à educação. Muitas das coisas que os educadores fazem atualmente podem ser reformuladas em uma estrutura de pensamento enxuto. Como a maioria das mudanças sistêmicas, uma cultura de “podemos fazer melhor” precisa emergir. Isso levará tempo e vai depender de boa liderança.

 

Inovação: Que práticas lean o senhor adota em sua vida pessoal?

 

Earll Murman: Uma aplicação direta (de alguma forma relacionada à última pergunta) é aplicar a filosofia lean thinking ao nosso curso lean thinking. Ele foi oferecido doze vezes e em cada oportunidade houve mudanças a partir dos princípios de melhoria contínua que ensinamos. Além disso, na minha vida pessoal, procuro praticar melhoria contínua e respeito pelas pessoas. Um exemplo é usar conceitos de fluxo de peça única para e-mail. Eu costumava agrupar minhas mensagens de e-mail e responder em grupos. Agora eu normalmente respondo imediatamente. Isso me poupa tempo e respeita a pessoa que precisa da resposta.

 

*Esta entrevista contou com a colaboração de Carlos Lopes, engenheiro mecânico, especialista em sistema lean. Lopes foi professor do Colégio Técnico da Unicamp (Cotuca), Metrocamp e da Facamp.

 

Fonte: Inovação Revista Eletrônica de P,D&I

 
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