logo

slogan

ufscar

Cadastre-se e receba as novidades sobre a Agência Inovação da UFSCar por e-mail
parceiros_top

failogopequeno

 

fortec

 

inpi

 

parceiros_bottom

Redes Sociais

face twitter youtube

É urgente colocar a ciência, a tecnologia, a engenharia e a energia na voz das mulheres

Sex, 09 de Março de 2018 10:03

Artigo de Aline Cristiane Pan, mulher, mãe da Sofia de 5 anos e do Benício de 3 anos, pesquisadora e professora da PUCRS

 

Mulheres que trabalham com ciência são promovidas pela mídia a todo instante com o intuito de desmistificar o gênero nesta área. No entanto, a realidade crua destas mulheres é pouco falada e/ou inclusive “apaziguada” para que não seja retratada. E os motivos disso são inúmeros, tais como: vergonha, tempo, medo, desunião, reconhecimento, etc. Mas, todas as mulheres que trabalham com ciência já sofreram ou sofrerão algum tipo de discriminação em sua carreira científica.

 

Citarei alguns exemplos que identifiquei nestes 20 anos na área. Inicialmente podemos pensar nas premiações ou promoções de projetos de fomento de gênero que “tentam” valorizar as mulheres que trabalham na ciência. O primeiro critério de avaliação para estes prêmios/projetos são os números de artigos e projetos que estas mulheres estão envolvidas nos últimos anos (@ 3 anos). No entanto, se esta mesma mulher teve neste período de tempo 2 filhos e com isso 2 licenças maternidade (consideremos o período de latência também) , isso não é considerado sob hipótese nenhuma. Claramente que a opção de ter estes filhos foi dela, mas ela deve ser avaliada pelo mesmo período que as demais que estavam “ativas” para todo o tempo? Ou estas regras foram feitas baseadas em perfis masculinos ou para mulheres cientistas que não são mães? As instituições governamentais que regulam a educação superior brasileira ao avaliar um programa de pós-graduação (onde fazem parte muitas das mulheres cientistas), que é realizado trienalmente, também não consideram o período de licença/latência. Logo, como as universidades vão fazer diferente, se o governo não legítima esta situação. Então, o tempo corre para todos iguais? E esta maneira que devemos promover as mulheres na ciência? Como ser mãe/mulher e cientista para estas situações? Além disso, muitas destas mulheres trabalham em laboratórios e enquanto estão grávidas e na latência não podem exercer suas funções plenamente. Depois, já voltam frustradas para o trabalho, pois “produziram” pouco para este período. Sim, só “produziram” mais um ser humano e não um artigo Qualis A (nível de excelência). Onde é que estamos incentivando mesmo as mulheres a serem cientistas?

 

O que tento provocar não é uma premiação por ser mulher/mãe e cientista, e sim uma consideração e reconhecimento por isso. A luta pela igualdade independente da discriminação é fundamental. Mas, sabemos que há diferenças entre homens e mulheres, e isso é da nossa natureza. O que não podemos é desfavorecer ou favorecer um gênero por não ter as mesmas “atribuições”. Só podemos comparar para o mesmo âmbito, coisas similares, e sim todos, homens e mulheres, trabalham e devem ter resultados. Mas, há períodos e circunstâncias diferenciadas para cada um. Também podemos falar do comportamento/visão que é diferente e deve ser considerado. Acredito cada vez mais que qualquer tema aos ser investigado torna-se fundamental a visão ampla (plural), pois isso enriquece as possibilidades e cresce o número de soluções. Será que a visão desde um olhar mais emocionalmente envolvido é errado? Por que não somos capazes de aceitar estas diferenças e crescer através delas? Por que precisamos nos comparar a todo instante, se não somos iguais? A igualdade como espécie existe, e existe esta mesma igualdade quando comparamos salários/posições? Como conseguiremos trazer mais mulheres para ciência sem valorizar as características destas mulheres? Precisamos mudar o nosso comportamento para isso?

 

Acabo de ser convidada para participar de uma organização chamada “Mujeres Solares” (Mulheres Solares) de ex-colegas, amigas e cientistas espanholas, e o que me deparo é que a realidade do velho mundo é muito similar a nossa. Entendo que isso seja ainda pior, pois “Eles” (europeus) são a nossa sociedade evoluída teoricamente, ou ainda, lá sim já tiveram impressionantes mulheres cientistas (Prêmio Nobel). Mas, igualmente concluem que “é urgente colocar a ciência, a tecnologia, a engenharia e a energia na voz das mulheres”. Será que algum dia verdadeiramente foi deixado estas mulheres falarem? Elas conseguiram dizer o que realmente sentem da/pela ciência?

 

Para todos os âmbitos científico-tecnológico encontramos uma situação similar: apesar de uma presença relevante, as mulheres têm escassa ou nula visibilidade em posições estratégicas. A presença de mulheres no setor energético nos últimos anos teve um considerável crescimento. No entanto, isso não é traduzido quando analisamos os fóruns de decisões. Além disso, a invisibilização faz com que menos meninas estudem ciências/engenharia, e acabem decidindo pela carreira técnica e científica. Os desafios são urgentes, inescapável, é essencial uma transição para um modelo justo e sustentável. Neste trânsito, 50% das vozes não podem permanecer silenciadas.

 

Ao formar novas jovens cientistas penso em mostrar-lhes o quão importante é a perspectiva humana desta formação. Sinto muita dificuldade para que elas entendam. Pois, é considerado que a fragilidade humana desmistifica a ciência, e pergunto: “Não há fragilidade na ciência?” Por que não podemos ter um olhar mais sensível para um fenômeno? Não quero com isso desconsiderar ou invalidar os fatos/observações reais, e nem mesmo contradizer os métodos já estabelecidos. Mas, o que tento discutir é que ainda sabemos de tão pouco de tudo, que acredito que todos os olhares devem ser considerados e valorizados. Não existe uma única maneira de fazer ciência.

 

Quero ser mulher/mãe/cientista com orgulho do meu olhar. Desejo que todas as mulheres que queiram mergulhar nestas áreas se sintam amparadas, e não amedrontadas. Desejo que cada uma possa fazer suas escolhas baseadas em suas vontades, e não em uma situação idealizada de carreira feita pelos homens. Tenhamos a nossa carreira, e façamos o nosso trabalho da melhor forma possível. Mas, considerando que somos diferentes em muitos aspectos. Não nos sintamos mal pelas nossas diferenças, e sim orgulho destas.

 

O intuito deste pequeno desabafo é fomentar as vozes! Mulheres precisamos falar, pois senão nunca deixaremos de celebrar o dia 08 de março.

 

Sobre a autora:

 

Aline Cristiane Pan, mulher, mãe da Sofia de 5 anos e do Benício de 3 anos, é professora/pesquisadora, física, mestre em Engenharia e doutora em Energia Solar Fotovoltaica. Coordena o Curso de Especialização em Energias Renováveis desde 2012, e o Núcleo de Educação Continuada da Escola de Ciências desde 2017 da PUCRS. Atua como professora adjunta da Escola de Ciências, do Curso de Especialização em Gestão da Qualidade para o Meio Ambiente e do Curso de Especialização em Energias Renováveis da PUCRS.

 

Fonte: Jornal da Ciência, 08/03/2018

 
free poker
logo_rodape
Agência de Inovação da UFSCar - Rodovia Washington Luís, km 235 - Caixa Postal 147 CEP: 13565-905
São Carlos, SP - Brasil - Tel: (16) 3351.9040 - inovacao@ufscar.brmaps
mapa