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Ciência brasileira: a floresta que estão prestes a derrubar

Qua, 13 de Setembro de 2017 01:30

"Temos repetido que interromper a ciência não é como interromper uma obra de estrada ou ponte. Mas não deve ser óbvio, para quem não vive o dia a dia do processo científico, que na ciência, assim como na natureza, não se pula uma geração". Artigo de André Ramos, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e Secretário Regional da SBPC em SC, para o Jornal da Ciência

 

Nas últimas semanas, assistimos a uma corrente de ações e reações relacionadas à extinção, por decreto presidencial, da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), área de 46 mil km² da Amazônia brasileira. Em mais um movimento desastrado, o governo parecia dizer: extinguimos, sem debate ou explicação, e quem não gostar que vá reclamar com o bispo. Pois foram. E o bispo reagiu. Na verdade, uma coalizão de bispos de nove países amazônicos, membros da Rede Eclesial Pan-Amazônica, repudiou o ato como "uma ameaça política para o Brasil inteiro". Vozes da sociedade nacional e internacional se uniram a dos bispos, a imprensa reverberou, fazendo mover as demais peças do tabuleiro e colocando em xeque a decisão do governo, que revoga, modifica e finalmente congela o ato.

 

É interessante perceber que, mesmo em um país atônito e supostamente anestesiado, uma reação coletiva, envolvendo diferentes setores da sociedade, consegue reverter um ato antidemocrático de forte significado político-ambiental. Por que não se vê resistência equivalente no campo político-científico? No caso da Renca, em apenas uma semana levantaram-se as bandeiras contra o desmatamento, com vigor suficiente para fazer recuar um governo que pouco se importa com a opinião popular. Paralelamente, penamos para obter assinaturas de apoio ao Museu Emílio Goeldi (no momento em que redijo este texto, 3.820 pessoas assinaram), a instituição de pesquisa mais antiga da Amazônia. Fundada em 1866, ela corre o risco de fechar suas portas em decorrência dos cortes impostos por este mesmo governo impopular. Em contraste semelhante, ao mesmo tempo em que se repercutia e barrava a extinção de uma reserva rica em biodiversidade, pouco se ouvia sobre o desmantelamento da maior rede de pesquisa em biodiversidade do Brasil, o PPBio, que inclui nada menos que 626 pesquisadores espalhados por todo o território nacional. Apesar de seu desempenho impressionante nos últimos dez anos, demonstrado em artigo publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation, a rede do PPBio, como tantas outras, corre o risco de entrar em colapso.

 

Penso que a resposta a esta aparente contradição reside na diferença de percepção a respeito de dois patrimônios nacionais igualmente únicos e insubstituíveis: nossa natureza e nossa ciência. A primeira, aprendemos a amar. Boa parte da sociedade brasileira hoje se orgulha de suas florestas. Floresta derrubada não volta e isso não é bom. E quanto ao nosso patrimônio científico?

 

Em pesquisa feita pelo MCTI em 2015, observou-se um grande interesse dos brasileiros por Ciência e Tecnologia. A percepção a respeito dos cientistas era positiva e os entrevistados eram favoráveis ao aumento dos investimentos na área. No entanto, não conheciam cientistas nem instituições de pesquisa. Ora, não se luta pelo que não se conhece e não se ama o que não se compreende. E compreender como se faz ciência é essencial para se entender o real efeito dos cortes governamentais, entender que certas coisas, quando cortadas, morrem. O conhecimento é uma delas.

 

Temos repetido que interromper a ciência não é como interromper uma obra de estrada ou ponte. Mas não deve ser óbvio, para quem não vive o dia a dia do processo científico, que na ciência, assim como na natureza, não se pula uma geração. Na ausência de filhos não existirão netos. Simples assim. A ciência, vista como um sistema vivo (e o mesmo vale para suas irmãs, a educação e a cultura), não permite interrupções, pois o conhecimento não precisa apenas ser gerado, precisa também ser transmitido de geração em geração. Dentro do sistema científico, assim como em uma floresta, as relações de cooperação, simbiose e interdependência são quase infinitas. Da mesma forma que uma floresta reúne incontáveis espécies que dependem umas das outras, desde bactérias, fungos, liquens e pequenas plantas, até os vistosos animais que se alimentam de outros animais que mal enxergamos, o mundo da ciência também envolve uma trama complexa e delicada de diferentes personagens.

 

Estudantes de graduação e pós-graduação, pós-doutorandos, técnicos, empresários, fornecedores, administradores e cientistas consolidados, são como os diferentes estratos de uma floresta, que vão desde as ervas, cipós e arbustos até as frondosas árvores, todas vivendo sobre um solo igualmente vivo e em constante transformação. O conhecimento, assim como o solo, leva séculos para ser formado, mas pode ser destruído em tempo muito curto. Como o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria, os atuais cortes de orçamento podem levar à destruição coleções inteiras de nossos museus. Nesse complexo ecossistema, nossos estudantes são como a seiva, que carrega nutrientes das raízes até as copas mais altas. Cortar seu fluxo vital mata a floresta. Faz-se isso cortando bolsas de estudo.

 

Pessoas levam anos para aprender a pensar cientificamente, para se tornar capazes de montar, executar, interpretar e comunicar seus resultados. Uns aprendem com os outros, assentados sobre uma mesma base, construída ao longo de décadas de investimentos. O desmonte de uma estrutura dessa grandeza faz ruir todas as suas camadas. Mais que a parte visível, destrói-se a base que a sustenta. Dizem que as construções incas sobreviveram a séculos de terremotos por terem grande parte de suas paredes enterradas sob o chão. Assim são as florestas. Assim é a ciência. O mais importante é aquilo que pouco se vê. Por isso, ao se derrubar uma floresta, não nasce em seu lugar outra floresta. Nasce a capoeira (do tupi-guarani, "mato que já se foi"). Ou pior ainda, o deserto.

 

Sobre o autor:

 

André Ramos é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador do Projeto Imagine de popularização científica, chefe do Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética (UFSC) e Secretário Regional da SBPC em SC.

 

Referência:

Fernandes et al. 2017. Dismantling Brazil's science threatens global biodiversity heritage. Perspectives in Ecology and Conservation. http://dx.doi.org/10.1016/j.pecon.2017.07.004

 

http://www.euconcordo.com/peticao/1595/sosgoeldi/

 

http://percepcaocti.cgee.org.br/

 

http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/a-ciencia-brasileira-esta-falida-e-dai/

 

Fonte: Jornal da Ciência, 12/09/2017

 
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